segunda-feira, 17 de novembro de 2008

O SUL

Sentada no porto, frente à água de um azul-escuro de fim de tarde, cedo à hipnose da ondulação e da flauta de pan que um índio toca perto. A cada lado, os muitos mastros dos barcos aqui atracados raiam o perfil da cidade. Flutuando acima deles, sobre um morro mais afastado ergue-se a catedral de Notre Dame de la Gare. Dentro, miniaturas de caravelas e quadros náuticos oferecidos, exprimem a gratidão das gerações de marinheiros que a virgem protegeu. Estou em Marseille, primeira de França e uma das mais importantes cidades portuárias do mediterrâneo. Ao longo de 2600 anos de história, muitos povos, mercadores e culturas deixaram aqui a sua marca. Caiu a noite e calou-se o índio. No lugar onde estou sentada o cheiro a peixe é intenso: aqui o vendem todas as manhãs num mercado que deixou vários detritos espalhados. Apesar do fascínio do mar, dos barcos, do Vieux Port, da Corniche, longa marginal junto à água e das famosas navettes, um pão doce de flor de laranjeira e forma de barquinho, Marseille é uma cidade algo desagradável: suja, deteriorada e com mendicidade. O ponto alto deste fim-de-semana de visita foi a manhã nas calanques, uma zona protegida de estreitos vales calcáricos com origem glaciar, hoje parcialmente recobertos pelo mar e por vegetação mediterrânica. Céu azul, calor, um mar turquesa, grandes rochedos escarpados precipitando-se sobre a água, um veleiro no horizonte: foi Verão, foram férias grandes por umas horas. A relembrar também a visita guiada ao Quartier du Panier, o bairro antigo, de ruelas estreitas e inclinadas sobre o Vieux Port, como as da Ribeira sobre o Douro. Na Vielle Charité, um dos edifícios do Panier, visitámos uma exposição que punha lado a lado Van Gogh e Monticelli, seu contemporâneo marselhês que lhe terá fornecido inspiração. Viajo com amigas erasmus: duas romenas e uma polaca num bom ritmo de visitas e clima de grupo. Como preparação para a viagem, um dvd turístico sobre Marseille que vimos de caderno na mão anotando as atracções a não perder. A propósito, quero dizer o quão gosto das bibliotecas de Grenoble. Trata-se de uma rede de cerca de 10 bibliotecas espalhadas pela cidade, onde, com um cartão anual que custa 7 euros, se requisitam gratuitamente livros variadíssimos desde guias de viagem a manuais de Francês, dvds, cds de música e até quadros para a parede. A escolha é infinita! A secção que mais me fascina é a dos dvds que tenho visto aos 3 por semana, não só ficção, mas também documentários interessantes, como este de Marseille.

Fomos recebidas em casa de um couchsurfer, residente no último piso de um velho edifício do centro de Marseille. Na pequena sala, onde o pó se reproduzia sobre objectos em insólita co-habitância instalámo-nos como pudemos em colchonetes e almofadas de sofá. O próprio, um rapaz que se reclina para dar os beijos mais sonoros que ouvi, vive na noite, entre copos e milongas e fuma os seus charros. O cheiro a erva deve servir-me como soporífero porque há muito que não dormia tão profundamente. O apartamento é partilhado, desde há uma semana, com um outro co-locataire, um rapaz mais jovem, empenhado em corrigir os nossos erros de Francês. Os jantares ficaram por nossa conta (o último, um saboroso assado de peixe, que deu uso ao forno há muito parado) e para lavar a louça improvisamos detergente de um velho limpa-vidros e solução para a roupa. A última noite foi a mais simpática: depois do assado, jogámos ao taboo, um jogo de palavras proibidas, com os anfitriões.

Na 2a-feira de manhã partimos em autocarro rumo ao universo da pintura de Cezanne, Aix-en-Provence. Visitámos o seu atelier como quem mergulha num quadro: as mesmas cores, os mesmos elementos representados nas telas, as mesmas árvores no jardim, a mesma luz. Ao longe, recorta-se a montanha de Sainte- Victoire, a mesma que o artista pintou incansável sob vários tons e estados de alma. No dia seguinte viríamos a escalá-la em 4 horas de marcha com a família que nos recebeu, um casal de investigadores em energia nuclear e as filhas adolescentes. Instalaram-nos bem, desta vez com direito a jantar cozinhado numa panela de pressão que se manteve a ferver sozinha numa caixa hiperisolante fabricada por eles. Visitámos o centro da cidade acompanhados por uma jovem do Quirguistão, ex-aupaire em casa dos anfitriões e actualmente casada com um francês. Um centro pequeno, cuidado e rico onde também a gente burguesa e elegante que se passeia é claramente diferente da de Marseille. De regresso a Grenoble, na 3a-feira à noite, tivemos todas a mesma sensação de voltar a casa. Atrás de uma cortina de chuva, a residência recortou-se com contornos de lar e primeira coisa foi encontrar os amigos para trocar novidades do fim-de-semana prolongado. Agora é claro para mim que a residência é um pulmão da vida social em erasmus e não a trocaria por nenhum outro alojamento!

5a feira da semana passada, antes da viagem ao Sul de França, apresentei o caso clínico que me permitiu validar mais um estágio com nota máxima. No que concerne à apresentação do caso em si, o mérito não é grande, foi algo simples, rápido, sem questões. Em relação às horas de trabalho que labutei nas Urgências, não foi senão mais que justo. Fazendo as contas por alto, vi aproximadamente 100 doentes, o que quer dizer: falar com o doente, escrever um relatório, pedir exames complementares, suturar ou fazer gessos se necessário... O que não ganhei em termos teóricos (estive nas Urgências de Traumatologia, o que quer dizer que 90% dos casos são idosos que caiem, acidentes de viação, bicicleta ou desporto, com entorses, fracturas, feridas e contusões como lesões) lucrei em à vontade para lidar com os doentes e com a realidade prática do hospital. As últimas 2 semanas foram muito reconfortantes para o ego: a equipa de internos e externos mudou e durante uns tempos fui procurada pelos novatos para explicar a mecânica do serviço e o que fazer nas várias situações.

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