Imersa na veneração da montanha e do desporto que aqui se pratica maciçamente (típica conversa entre amigos: "Salut, que tal a escalada do fim-de-semana?" "Excelente, era um 6B e tu, chegaste a mergulhar naquele lago?" "Não, acabei por subir ao pico da Chartreuse") apercebo-me do quão cultural é toda esta questão. Aqui há material, há experiência e iniciativa, há sobretudo uma interacção sem receios com os elementos naturais, aliados de bons momentos de ar livre e de convívio. Outra coisa é a diferença na escala de dificuldades.
Nada é sobrestimado. Fácil é igual a fazível e não a facilidade. Assim, quando me propuseram uma sessão de espeleologia fácil pareceu-me uma boa oportunidade. A noite de 6a feira é para curtir, mas atenção discotecas e bares, cinemas e restaurantes, um novo concorrente se perspectiva: a exploração grutas de capacete e lanterna na cabeça. Entre as 18h e as 2h30 da manhã, quando regressei, a palavra fácil perdeu a sua definição... 1º capítulo - alcançar a gruta: 1h30 de marcha, noite serrada, trilho estreito com falésia a um dos lados, subida, neve pelo meio da perna, 0ºC. 2º capítulo - a gruta: 3 horas nas vísceras do monte! Tratava-se de um labirinto de túneis, frinchas, por vezes cavidades mais espaçosas e altas, cascatas e pequenos cursos de água dum vasto sistema de grutas calcárias da região. Inicialmente gatinhamos por um corredor de tecto baixo e agreste onde o capacete se mostrou vital. Já íamos avançados no "passeio" quando o organizador propôs uma descida por um túnel sinuoso cravado por um pequeno ribeiro. Aquilo era uma fenda tão estreita que só a muito custo conseguia espaço para voltar a cabeça e ver quem vinha atrás, viragens que exigiam destreza de contorcionista e água que não tardou a inundar as botas. E descia, descia, descia...
Engolida naquelas entranhas de pedra, apertada, esmagada, sufocada, sem poder recuar, distanciada do da frente, da presença e da luz do da frente, sem saber onde acabava aquela descida interminável que depois teríamos de subir em sentido oposto, comecei a entrar em pânico, provei a claustrofobia. Espremi-me contra uma reentrância para deixar passar os outros e, agoniada, esperei pelo organizador. Acidente acontecesse, dali não sairia e, aí, bateu-me forte a irresponsabilidade de não ter nenhum seguro que cubra espeleologia. Enfim, quando o leader passou tranquilizei-me ao falar com ele e consegui seguir em frente, fazer todo o percurso inverso e sair da caverna com vida. Numa reentrância um morcego felputo de grandes olhos lembrou a todos que a noite era de Halloween. A minha psicologia do medo: morro de medo do desconhecido - desconhecer os riscos, as regras, as condutas em situações estranhas.
Desde que bem informada, dou com entusiasmo o primeiro passo. Não há dúvida que foi uma experiência interessante, mas duvido que repita. Ainda antes de entrar na residência, às 2h30 da manhã, encharcada, enlameada e desgrenhada, ouvi um coro vozes conhecidas vindas de uma janela e fui encontrar o fim da festa de Halloween dos outros erasmus onde, escusado será dizer, eu era, de longe, a criatura mais assustadora.
Esta semana fugi de uma sala nas Urgências. Um dos médicos mandou-me suturar e eu arregacei logo as mangas. Ao entrar na sala deparei-me com um alcoólico crónico que se auto-mutilara com cortes nos punhos. Estava agitado e remexia-se na marquesa. Comecei a colher a história e quando lhe perguntei o que usara para se cortar disse-me que uma faca que tinha ali no casaco "Eu mostro-lhe, eu mostro-lhe, por favor tira-ma ou faço mal a mim próprio!"... Fiquei aterrorizada e aproximei-me logo da porta ao que ele gritou para que não o deixasse sozinho ou faria mal a si próprio. Sai, deixei a porta aberta e procurei o auxílio de uma médica que estava por perto. Cheguei ao pé dela e gesticulei apontando para a sala porque tinha um nó na garganta e não consegui pronunciar palavra. Não quis cose-lo o que desagradou ao médico que teve de ir lá fazer uma tarefa que compete aos externos. Peguei rapidamente noutro doente para esquecer o episódio e o seguinte foi uma idosa que 5 minutos depois começou a convulsivar à minha frente. Foi uma crise tónico-clónica generalizada e vou usar o caso para apresentar na 2a-feira.
Um pouco da vibrante vida social de Grenoble: 3a feira fui jantar a casa do Konrad, um alemão muito tranquilo que vive num edifício de jesuítas. 4a feira eu e mais alguns co-habitantes, organizamos uma festa surpresa para a Ana, a minha vizinha espanhola.
Vou tentar prolongar o meu séjour por cá. Pedi ao coordenador de Erasmus para ficar até 30 de Janeiro e fazer Psiquiatria e Urologia segundo um calendário que lhe apresentei. Assim sendo, tenho um mês para esquiar, falar Francês, fazer uso da minha panóplia de cartões e dizer adiú a toda a gente. Quanto ao Francês, vou aproveitar para fazer aqui o Delf, o exame correspondente ao nível B2. Assim junta-se o útil ao agradável: tenho uma motivação para estudar a língua e saio com o diploma.
No próximo weekend vou conhecer Marseille com 3 amigas. Vamos de TGV e ficaremos hospedadas em regime Couchsurfing (para quem não conhece www.couchsurfing.com). Escreverei novidades! Amanhã vai ser um dia duro porque tenho de me dedicar com toda a motivação ao meu caso clínico que devo apresentar na 2a feira! Au revoir!
Sem comentários:
Enviar um comentário