Selamat pagi!
Estou muito sonolenta. Desde há 3 dias, tem chegado membros da família, que acorrem sobretudo de outros pontos de Java, para as cerimonias do fim-de-semana. São tios, primos, amigos próximos a quem foi atribuído um titulo de parentesco, muitos vem noite dentro, como o tio que chegou com os seus 4 frenéticos filhos as 2 da manha; no total, já mais de 20 pessoas se instalaram (partilham a cama ou dormem em esteiras) e a casa não tem tido parança. Para a miudagem sou um bicho raro: uns abordam-me para brincar, há os que me observam detrás de uma esquina de parede e os que gritam e fogem (2 garotos de 10 anos esconderam-se debaixo do carro na garagem, quando me aproximei!). Os adultos são curiosos, dirigem-se a mim em bahasa ou num inglês elementar, querem saber como são as coisas no meu pais, riem alto das minhas duvidas, enfim, o facto de um bule (estrangeiro) estar ali imiscuído em pleno coração da vida familiar não parece incomodar ninguém. Quando respondo que sou portuguesa, leio logo uma desorientação na expressão do interlocutor, que repete entredentes, "oh Portugal, Portuguese" - por cá a maioria dos turistas são asiáticos e do mundo ocidental são os americanos, holandeses, ingleses e alemães os que mais aparecem. Mas depois de alguns segundos, la vem a exclamação: "Ah! Cristiano Ronaldo!!!". Ficam mesmo contentes! E um verdadeiro ídolo, neste pais em que o desporto favorito e (também) o futebol!
Ontem foi apresentada a proposta oficial de casamento da irmã da Dinda, a Aio. Conheci-a na 4a-feira, o dia das eleições presidenciais. Chegou de Jakarta, onde trabalha no Central Bank, apesar da sua formação ser em informática. E baixinha (a minha escala, portanto, como os restantes indonésios – devo dizer que a família ficou muito desiludida ao ver uma europeia tão pequena!), de cabelos pretos longos e sorriso sereno. E a que melhor fala inglês: esta a ter aulas porque tem ambições de fazer uma pós-graduação nos EUA. Sensível, responsável, mais madura, comparo-a com a Dinda que e mais sofisticada, irreverente e imponderada. Acho-as a ambas muito abertas, falamos de tudo sem restrições. As eleições foram pacificas, o presidente anterior foi reeleito com 61% dos votos, ao que parece tem apostado com sucesso no combate a corrupção. Estava eu preocupada com motins, e ate as acompanhei as urnas, num terreiro a 2 minutos de casa!
A tarde, passei-a com as irmãs no cabeleireiro. Copiei-lhes as escolhas e durante 3 horas vi-me envolvida num Hair Treatement, designação insatisfatória para englobar lavagem, múltiplos cremes, nebulizações do cabelo com ozono (!), massagem do couro cabeludo e também dos ombros, braços, pés e pernas e um chá de gengibre! O cabeleireiro era, em estrutura, bastante semelhante aos dai, mas sem agua quente… A noite, a mãe da Dinda arrastou-me para casa de uma amiga sua, vendedora de batiks (tecidos pintados, tradicionais, que se usam, entre outros, para vestuário), onde, antevendo uma cliente, esta me cobriu com uma data de panos de seda, bastante caros para os meus orçamentos. Senti-me pressionada, compelida a retribuir a simpatia com que tenho sido recebida, mas felizmente não foramos ali só por minha causa (elas precisavam de echarpes para a cabeça) e consegui arranjar boas desculpas para não comprar nada.
A cerimonia de proposta de casamento acorreram 40 membros da família da noiva e 30 da do noivo: vieram cadeiras emprestadas da “junta de freguesias” para sentar toda a gente, como se a sala de estar fosse um pequeno auditório. Os membros da família do noivo entraram em procissão, trazendo presentes nas mãos: uma cesta de macas, outra de uvas, um peixe frito com arroz, uma taça de doce, tudo comestíveis…
Os presentes foram depositados na pequena “sala de orações” domestica e, no final da festa, foram logo todos contempla-los, sorridentes. Tinham sido boas ofertas! A cerimonia teve muito de protocolar: perante a assistência das duas famílias, os familiares (homens) do noivo apresentam a proposta de casamento, a qual os familiares (homens) da noiva respondem com aprovação. Finalmente, um porta-voz apresenta os elementos da família ali presentes. No fim, janta-se. Pouco depois, a família do noivo abala. O casamento teve ordem de marcha: será algures nos próximos 4 meses, idealmente numa data calculada pelo calendário javanês.
O
jantar no Pak Pele (Senhor Pele) foi curioso. Antes de la chegarmos, vi outros “estabelecimentos” parecidos e interroguei a família sobre se aquelas pessoas sentadas no chão eram pobres que viviam na rua… é que o “restaurante” e um misto de carrinho-de-mão-fogão, complementado por um toldo e dai saem refeições que são distribuídas pelas “mesas”, uns tapetes desgastados dispostos ao redor, onde se sentam os clientes, tudo ao ar livre! Felizmente havia vagas (um tapete livre, sobre a terra, na extremidade menos iluminada) porque o Pak Pele e muito concorrido. Deixei os sapatos no canto do tapete, cruzei as pernas a chinês e debrucei-me sobre uma grande malga de massa (feita de farinha de arroz), com galinha desfiada, molho de soja e picante e outra de uma sopa doce com bolinhas de arroz cozido, amendoins e cubinhos roxos de leite de coco cozido a flutuarem. Rapidamente me deixei contagiar pelo ambiente descontraído, de repente já não estava no mesmo descampado sujo, a comer sabe-se la o que, desafiando
gastroenterites e a malária das picadas dos mosquitos - saboreava uma massa deliciosa, sob as estrelas, com umas guitarradas como fundo e o conforto de uns 27 C! Com a Aio, de véu e saia de batik, conversava girl-to-girl como faria com uma amiga portuguesa! Surgiu o assunto do pai, que terá morrido de ruptura de aneurisma cerebral... Vi como ficou comovida; há um ano atrás foi ela que o viu cair de repente e o meteu no carro, inconsciente, para o levar ao hospital. Ainda o tem tão presente que, recentemente, sentiu-o vir abraçá-la durante a noite e correu a acordar o irmão para este verificar se o pai não estaria ali mesmo na sala. No próximo Domingo reunir-se-ao família, amigos e antigos companheiros e treinadores de futebol para uma partida em memoria do numero 13, capitão da selecção Indonésia nos anos 70, obedecendo a um seu desejo antigo.Como não vou estar encomendei um ramo de rosas na florista (fui a primeira cliente portuguesa!) e descobri que são artigos de luxo (só as cultivam em altitude – aqui e demasiado quente) com preços quase europeus!
Parêntesis para umas subtilezas relativas a alimentação: 80% da alimentação são fritos (um deles chama-se rissoles e aparenta-se com os nossos!) mas, mesmo o que não e frito, e gorduroso. Fruta e legumes são raros.
A ninguém parece afligir que a dieta assim seja. A fritura atinge altas temperaturas e e boa para eliminar a bicharada, mas a razão de tão ampla preferência deve-se, segundo a Dinda, ao melhor sabor. Alem disso, comida exposta nas ruas, preparada em bancadas pouco limpas, manipulada a mão, bem como pratos mal lavados são comuns. Todos vivem bem com isto porque a consciência de higiene alimentar e reduzida. Em relação ao curso da refeição, apercebi-me que doces e salgados se sucedem sem ordem precisa e muitas vezes co-exitem no mesmo momento. Refiro-me a doce tipo “sobremesas”, que, inicialmente pensei que ali estivessem por engano, mas não, e mesmo assim: a refeição pode mesmo começar com uma gela
tina de fruta em calda e uma fatia de bolo de chocolate!


Se estar a explorar a cultura local esta a ser fascinante, o mesmo não posso dizer da Summer School. Os professoras falam muito mal o Inglês, e dificílimo entende-los, questiona-los então, e absolutamente impossível, nem depois de 5 alunos diferentes terem tentado reformular uma duvida, se consegue uma resposta adequada... e exasperante. Os alunos da organização safam-se melhor, mas tem também muitas lacunas: demoram 10 minutos a dar-nos uma indicação simples, para alterarem os planos 5 minutos depois e terem de repetir os esforços outra vez… O grupo e enorme e de difícil gestão (80 estudantes de Medicina de 14 países diferentes, em anos do curso diferentes - desde os que vão começar, aos que já terminaram). A excepção da noite de boas-vindas, pensada ao detalhe, com apresentadores não vacilantes, belas danças javanesas, instrumentos tradicionais, iguarias locais, o staff todo vestido em batik e a presença do reitor (mas esse, nem a ler um papel foi compreensível, coitado), as outras actividades que ate aqui nos arranjaram ficaram aquém das expectativas e, por vezes, são desadequadas a faixa etária.