quarta-feira, 9 de setembro de 2009

ARROZ-DOCE

É hoje o jantar internacional. 3 horas passadas na cozinha a preparar uma dose maciça de arroz-doce (oh arroz omnipresente, foi para o tacho mesmo com moscas porque me arriscava a perder a goma se o passasse por água!) e a tentar lavar a louça com um detergente diluído na razão de 1:100 e com os destroços de uma esponja, pude ver de perto a sujidade que ali reina. Sujo nas frinchas dos móveis e dos electrodomésticos, sujo entre os frascos, latas e louça. No tecto ouço ratos a passear (a população residente deve ser numerosa e hoje tem uma vitima a lamentar porque "cheira a rato morto", apesar de ainda não termos descoberto o cadáver putrefacto!). Suspeito que sejam eles os responsáveis pelo trémulo periódico da luz da cozinha... E isto é a classe alta, com empregada doméstica! Ontem fui a um casamento, num meio mais rural, e, na cozinha-quarto, várias travessas de comida pousadas em cima da cama, entre uns trapos, conviviam com moscas, um gato, uma criancinha mergulhando o pé na taça do frango e outra, com a mãozinha agarrando rodelas de pepino. Pergunto-me qual será o impacto deste desleixo na saúde publica. De uma coisa não me restam dúvidas: parâmetros de limpeza são culturalmente inculcados e talvez muitas das preocupações que temos desse lado sejam extremas sem repercussões práticas. Assim sendo, resta-me fazer fé no meu sistema imune, mandar o nojo as urtigas e usufruir com a maior sinceridade do que me e servido!

Yogyakarta e uma cidade com 3 milhões de habitantes, ruas que me parecem labirínticas (a excepção da Ring Road, uma cintura com 4 arestas que delimita uma grande parte da cidade, onde já vou reconhecendo alguns pontos, e da Malioboro, a principal artéria comercial), todas ladeadas por uma fila de casas ou lojas estreitas, tão a superfície da rua que não deixam espaço para o passeio dos peões. As ruas não tem nome indicado e também não há mapas com os trajectos dos transportes públicos. Na primeira semana, acabei perdida com 2 amigas. Sob um sol de mais de 30 graus, cruzamo-nos com pessoas que sorriam sem nos entenderem e olhavam o mapa pela primeira vez. "Vamos por ali!". Andar numa direcção, atravessar a rua - uma experiência aterradora porque a avalanche de veículos chega-nos de onde menos se espera (como agravante, e ainda não descobri porque razão, aqui o volante e a direita e a condução faz-se pela esquerda) - apitadelas (a buzina e um sinal tão valido como o pisca e quer dizer: "chega para la! vou passar"), desespero, helplessness!... Desde ai, tenho andado sobretudo a boleia da Dinda: de carro ou na lambreta. E durante o programa social, a organização alugou autocarros luxuosos, com estofos novos, ar condicionado e karaoke (aqui e tão popular que justifica cabines de instant karaoke nos espaços públicos!) e com a particularidade de ter cadeiras espaçadas não mais de 30 cm das da frente, onde os maiores do grupo se encolhem.

Esta semana, conhecemos algumas atracções da região. Aqui em Yogiakarta, existe um Sultão desde 1755 e as sucessivas gerações tem vivido num palácio no Kraton, um complexo muralhado. Ser Sultão e mais emblemático que outra coisa, mas o actual foi eleito governador da região e e bastante estimado. Dentro do Kraton há muitos expositores ao ar livre, fotografias e objectos pertencentes ao sultanato. A 45 minutos da cidade, fica Prambanan, um templo hindu, dos séculos VIII - IX. Inclui, na verdade, muitos templos, de diferentes tamanhos, nem todos de pé, não fossem os múltiplos terramotos da zona, e inspirados no perfil dos Himalaias. Mas o expoente da visita foi o ballet do Ramayana, um épico hindu, a que assistimos a noite, com os templos iluminados ao fundo e muitos morcegos grandes cruzando a noite pouco acima das nossas cabeças.. Foi um lindíssimo espectáculo de dança javanesa, musica ao vivo (estilo gamelan - um grupo de instrumentos de percussão semelhantes a xilofones), cor, luz e fogo. Ha muito que não via um espectáculo tão bom!

O curso segue um ritmo lento: só falaremos de tuberculose, dengue e malária... Ontem faltei as aulas para ir ao casamento. Sem peso na consciência. De outra forma não teria tido a chance de conhecer o notário islâmico onde uma estampa ampliada da mesquita de Meca forra a parede e o mesmo funcionário que trata da burocracia regulamentar entoa o Corão num árabe doce. Hoje tive uma aula em regime tutorial e tenho alguns TPCs para amanha.


Selamat tingall!

APA KABAR?

Selamat pagi!

Estou muito sonolenta. Desde há 3 dias, tem chegado membros da família, que acorrem sobretudo de outros pontos de Java, para as cerimonias do fim-de-semana. São tios, primos, amigos próximos a quem foi atribuído um titulo de parentesco, muitos vem noite dentro, como o tio que chegou com os seus 4 frenéticos filhos as 2 da manha; no total, já mais de 20 pessoas se instalaram (partilham a cama ou dormem em esteiras) e a casa não tem tido parança. Para a miudagem sou um bicho raro: uns abordam-me para brincar, há os que me observam detrás de uma esquina de parede e os que gritam e fogem (2 garotos de 10 anos esconderam-se debaixo do carro na garagem, quando me aproximei!). Os adultos são curiosos, dirigem-se a mim em bahasa ou num inglês elementar, querem saber como são as coisas no meu pais, riem alto das minhas duvidas, enfim, o facto de um bule (estrangeiro) estar ali imiscuído em pleno coração da vida familiar não parece incomodar ninguém. Quando respondo que sou portuguesa, leio logo uma desorientação na expressão do interlocutor, que repete entredentes, "oh Portugal, Portuguese" - por cá a maioria dos turistas são asiáticos e do mundo ocidental são os americanos, holandeses, ingleses e alemães os que mais aparecem. Mas depois de alguns segundos, la vem a exclamação: "Ah! Cristiano Ronaldo!!!". Ficam mesmo contentes! E um verdadeiro ídolo, neste pais em que o desporto favorito e (também) o futebol!


Ontem foi apresentada a proposta oficial de casamento da irmã da Dinda, a Aio. Conheci-a na 4a-feira, o dia das eleições presidenciais. Chegou de Jakarta, onde trabalha no Central Bank, apesar da sua formação ser em informática. E baixinha (a minha escala, portanto, como os restantes indonésios – devo dizer que a família ficou muito desiludida ao ver uma europeia tão pequena!), de cabelos pretos longos e sorriso sereno. E a que melhor fala inglês: esta a ter aulas porque tem ambições de fazer uma pós-graduação nos EUA. Sensível, responsável, mais madura, comparo-a com a Dinda que e mais sofisticada, irreverente e imponderada. Acho-as a ambas muito abertas, falamos de tudo sem restrições. As eleições foram pacificas, o presidente anterior foi reeleito com 61% dos votos, ao que parece tem apostado com sucesso no combate a corrupção. Estava eu preocupada com motins, e ate as acompanhei as urnas, num terreiro a 2 minutos de casa! A tarde, passei-a com as irmãs no cabeleireiro. Copiei-lhes as escolhas e durante 3 horas vi-me envolvida num Hair Treatement, designação insatisfatória para englobar lavagem, múltiplos cremes, nebulizações do cabelo com ozono (!), massagem do couro cabeludo e também dos ombros, braços, pés e pernas e um chá de gengibre! O cabeleireiro era, em estrutura, bastante semelhante aos dai, mas sem agua quente… A noite, a mãe da Dinda arrastou-me para casa de uma amiga sua, vendedora de batiks (tecidos pintados, tradicionais, que se usam, entre outros, para vestuário), onde, antevendo uma cliente, esta me cobriu com uma data de panos de seda, bastante caros para os meus orçamentos. Senti-me pressionada, compelida a retribuir a simpatia com que tenho sido recebida, mas felizmente não foramos ali só por minha causa (elas precisavam de echarpes para a cabeça) e consegui arranjar boas desculpas para não comprar nada.


A cerimonia de proposta de casamento acorreram 40 membros da família da noiva e 30 da do noivo: vieram cadeiras emprestadas da “junta de freguesias” para sentar toda a gente, como se a sala de estar fosse um pequeno auditório. Os membros da família do noivo entraram em procissão, trazendo presentes nas mãos: uma cesta de macas, outra de uvas, um peixe frito com arroz, uma taça de doce, tudo comestíveis… Os presentes foram depositados na pequena “sala de orações” domestica e, no final da festa, foram logo todos contempla-los, sorridentes. Tinham sido boas ofertas! A cerimonia teve muito de protocolar: perante a assistência das duas famílias, os familiares (homens) do noivo apresentam a proposta de casamento, a qual os familiares (homens) da noiva respondem com aprovação. Finalmente, um porta-voz apresenta os elementos da família ali presentes. No fim, janta-se. Pouco depois, a família do noivo abala. O casamento teve ordem de marcha: será algures nos próximos 4 meses, idealmente numa data calculada pelo calendário javanês.

O jantar no Pak Pele (Senhor Pele) foi curioso. Antes de la chegarmos, vi outros “estabelecimentos” parecidos e interroguei a família sobre se aquelas pessoas sentadas no chão eram pobres que viviam na rua… é que o “restaurante” e um misto de carrinho-de-mão-fogão, complementado por um toldo e dai saem refeições que são distribuídas pelas “mesas”, uns tapetes desgastados dispostos ao redor, onde se sentam os clientes, tudo ao ar livre! Felizmente havia vagas (um tapete livre, sobre a terra, na extremidade menos iluminada) porque o Pak Pele e muito concorrido. Deixei os sapatos no canto do tapete, cruzei as pernas a chinês e debrucei-me sobre uma grande malga de massa (feita de farinha de arroz), com galinha desfiada, molho de soja e picante e outra de uma sopa doce com bolinhas de arroz cozido, amendoins e cubinhos roxos de leite de coco cozido a flutuarem. Rapidamente me deixei contagiar pelo ambiente descontraído, de repente já não estava no mesmo descampado sujo, a comer sabe-se la o que, desafiando

gastroenterites e a malária das picadas dos mosquitos - saboreava uma massa deliciosa, sob as estrelas, com umas guitarradas como fundo e o conforto de uns 27 C! Com a Aio, de véu e saia de batik, conversava girl-to-girl como faria com uma amiga portuguesa! Surgiu o assunto do pai, que terá morrido de ruptura de aneurisma cerebral... Vi como ficou comovida; há um ano atrás foi ela que o viu cair de repente e o meteu no carro, inconsciente, para o levar ao hospital. Ainda o tem tão presente que, recentemente, sentiu-o vir abraçá-la durante a noite e correu a acordar o irmão para este verificar se o pai não estaria ali mesmo na sala. No próximo Domingo reunir-se-ao família, amigos e antigos companheiros e treinadores de futebol para uma partida em memoria do numero 13, capitão da selecção Indonésia nos anos 70, obedecendo a um seu desejo antigo.Como não vou estar encomendei um ramo de rosas na florista (fui a primeira cliente portuguesa!) e descobri que são artigos de luxo (só as cultivam em altitude – aqui e demasiado quente) com preços quase europeus!


Parêntesis para umas subtilezas relativas a alimentação: 80% da alimentação são fritos (um deles chama-se rissoles e aparenta-se com os nossos!) mas, mesmo o que não e frito, e gorduroso. Fruta e legumes são raros.

A ninguém parece afligir que a dieta assim seja. A fritura atinge altas temperaturas e e boa para eliminar a bicharada, mas a razão de tão ampla preferência deve-se, segundo a Dinda, ao melhor sabor. Alem disso, comida exposta nas ruas, preparada em bancadas pouco limpas, manipulada a mão, bem como pratos mal lavados são comuns. Todos vivem bem com isto porque a consciência de higiene alimentar e reduzida. Em relação ao curso da refeição, apercebi-me que doces e salgados se sucedem sem ordem precisa e muitas vezes co-exitem no mesmo momento. Refiro-me a doce tipo “sobremesas”, que, inicialmente pensei que ali estivessem por engano, mas não, e mesmo assim: a refeição pode mesmo começar com uma gela

tina de fruta em calda e uma fatia de bolo de chocolate!

Se estar a explorar a cultura local esta a ser fascinante, o mesmo não posso dizer da Summer School. Os professoras falam muito mal o Inglês, e dificílimo entende-los, questiona-los então, e absolutamente impossível, nem depois de 5 alunos diferentes terem tentado reformular uma duvida, se consegue uma resposta adequada... e exasperante. Os alunos da organização safam-se melhor, mas tem também muitas lacunas: demoram 10 minutos a dar-nos uma indicação simples, para alterarem os planos 5 minutos depois e terem de repetir os esforços outra vez… O grupo e enorme e de difícil gestão (80 estudantes de Medicina de 14 países diferentes, em anos do curso diferentes - desde os que vão começar, aos que já terminaram). A excepção da noite de boas-vindas, pensada ao detalhe, com apresentadores não vacilantes, belas danças javanesas, instrumentos tradicionais, iguarias locais, o staff todo vestido em batik e a presença do reitor (mas esse, nem a ler um papel foi compreensível, coitado), as outras actividades que ate aqui nos arranjaram ficaram aquém das expectativas e, por vezes, são desadequadas a faixa etária.

PRIMEIRAS IMPRESSÕES

No alto, ao lado do vermelho do semáforo, um quadro em contagem decrescente assinala os segundos que faltam para o verde. 5,4,3,2,1 motas, carros, bicicletas, riquechós arrancam em debandada. As motas são dezenas, não centenas, não milhares, um verdadeiro enxame a zumbir em movimentos rápidos e ultrapassagens ziguezagueantes a direita e a esquerda tangentes a outros veículos: uma trajectória incompreensível, no que a mim me parece uma permanente ameaça de colisão. No coração da nuvem de motorizadas, em cima de uma Honda, agarro-me como posso a cintura da Adinda, a minha anfitriã local. Tenho medo!!! Outras motas passam por nos a distancia de um pelo, espanto-me com a destreza, com o estarmos perto perto perto, mas não nos chegarmos a tocar. A mota e o transporte local por excelência, não há quem não tenha uma. Em cima de outras motas vê-se todo o tipo de coisas. Desde mulheres bem vestidas de carteirinha e tacão, homens rudes de chinela velha no pé, senhoras num lugar de passageiro idêntico ao meu, com saias compridas e as duas pernas para o mesmo lado, famílias inteiras, com bebes ensanduichados entre os pais, enormes sacos de batatas que ampliam 3 vezes a largura da mota, cestas carregadas, compras do supermercado em sacos de plástico presos por ganchos, a imaginação e o limite. De capacete mal amanhado que não prende bem a cabeça e uma mascara bico-de-pato para não aspirar poluição, desorientada pelos milhares de buzinadelas, la vou eu, murmurando preces, no meio deste enxame que envergonharia qualquer concentração motard europeia... muitos riscos equacionei, mas este nao esperava!


Para amenizar a mudança para as aguas do Indico, os dinamarqueses, a quem me associei na viagem, elegeram o hotel Atlântico de Jakarta para passar a primeira noite. Por 16 euros garantiam quartos elegantes, adequados ao standard internacional, com ar condicionado, banheiras e agua quente 24 horas por dia. Só depois da chegada a Yogyakarta, percebi porque raio e que uma banheira figuraria num cartão publicitário: aqui o WC habitual e um buraco no chão para os excrementos e um pequeno tanque de 0,1 m2, cuja agua se retira com um balde, como forma de autoclismo e de "duche". Em Jakarta, na realidade deparamo-nos com quartos muito modestos, algumas baratas, cabelos nos lençóis e um cheiro ubiquitário intenso a naftalina. Tudo toleraria, tal o cansaço, mas o calor húmido, resistente ao ar condicionado, e, sobretudo, o volume e estridência do chamamento do minarete provaram-se favoráveis ao jet lag e a insónia. As 6 horas de diferença horária rapidamente se expandem para 8 ou 10, quando sou acordada, as 4h30 de cada manha... O muezzin mecânico ecoa sonoro durante uns 45 minutos, por todos os cantos de todas as zonas habitáveis, e lembra que são horas da primeira oração. Ja vou no terceiro dia e ainda não recuperei das diferenças de fuso horário, não há café que me valha, aqui e uma agua castanha sem sabor a café e sem cafeína que se preze. Ainda assim, tão desidratada estava depois dessa primeira noite em que muito suei, que bebi sofregamente 4 chávenas ao pequeno-almoço, satisfeita com aquela fonte de hidratação segura, porque certamente fervida de tão quente. Só me apercebi no final que tinha a língua quase cozida e fiquei com dores todo esse dia... A preocupação com a segurança do que bebo valeu-me hoje outro dissabor, quando um copo de agua selado rebentou na minha mochila e me molhou os livros todos, inclusive o guia da Indonésia que esta agora a secar todo ondulado...


Arroz. Amarelo, vermelho, cozido, frito, em pasta, em grão, em forma de esparguete, como aperitivo, como prato principal, como sobremesa, ao pequeno-almoço, almoço e jantar. E, de facto, a base da alimentação. Aqui contudo, ao contrario de Madagáscar, não satura porque e apresentado de formas tão variadas. Os acompanhamentos possíveis são variados: frango, pato, vaca, carneiro, peixe, tudo complementado com molho picante. Como não como vaca, nem carneiro, tenho-me ficado pelas aves, com mais pele e ossos que carne. Os legumes não abundam: umas cenouras, pepino, tomate, ervilhas e couve flor. Fruta também tenho comido pouca, sobretudo porque nunca a encontro com casca. Come-se tudo a mão (direita), inclusive o arroz, com o qual se fazem bolinhas que se embebem nos molhos! Uma tacinha com agua funciona de guardanapo.

Quero dedicar um paragrafo aos quartos-de-banho. Como diz o ditado “na Indonésia, se indonésio” mas, se comer arroz picante a mão não tem sido problema, o mesmo não posso dizer da adaptação aos quartos de banho. O meu principal problema e que aqui não usam papel higiénico. Dos tais tanques de que falei, existentes em qualquer WC, retiram com o baldinho, agua para se lavarem e, o que mais me intriga, não se secam, depois. Com o mesmo balde tomo banho, atirando agua que retiro do tanque, por cima da cabeça, agua esta que e depois escoada por um buraco no chão. O quarto-de-banho e uma dependência da casa sempre molhada, onde tenho de arregaçar as calcas para entrar (de chinelos, porque os sapatos da rua se deixam a porta de casa). Não desgosto deste sistema de duche mais water-saving (só me custa apanhar com agua fria de manhã, quando ainda tenho o metabolismo a meio gás), mas, a “limpar-me” com agua e não ter papel higiénico, não consigo fazer, ate porque não entendo totalmente como se desenrola o procedimento. Em SOS fui a um supermercado comprar papel higiénico, que encontrei numas prateleiras do fundo da loja e pelo qual paguei uma fortuna (para os custos locais).

Os custos. E muito difícil perceber qual e o custo das coisas para os locais porque o ar de ocidental triplica logo as contas. Mesmo o triplo e barato, mas a necessidade de estar sempre alerta para minimizar o quanto somos enganados, e um bocado desgastante. Ate nos transportes públicos (autocarros decrétipos e enegrecidos que circulam a bolina de portas abertas e não tem paragens fixas) o “pica” tenta dar o golpe e pedir o dobro pelos bilhetes. A refeição na cantina universitária, uma humilde cabana com mesas isenta de espírito suga-turista, custa 40 cêntimos, um bilhete de autocarro 20 cêntimos, uma massagem de 2 horas 3 euros (!!!), uma ida ao spa capilar, como a que vou fazer hoje, 5 euros.


Neste que e o pais com a maior população muçulmana do mundo, a religião faz-se sentir em muitos dos aspectos do quotidiano, se bem que de forma aberta e sem fundamentalismos. Rezam 5 vezes ao dia (ate no avião, onde assisti a cena curiosa de ver dois xeques do Dubai a discutir em frente a que janela haviam de estender o seu tapetinho), não comem carne de porco, as raparigas tem de cobrir a cabeça na faculdade (idealmente nenhuma parte do corpo, a excepção da cara, mãos e pés deve ficar exposta), entre outros que descreverei mais tarde.

A Dinda e a mãe são as minhas anfitriãs. O pai, futebolista profissional da primeira liga, e, mais tarde, treinador na selecção, morreu com um AVC há precisamente um ano (na próxima semana farão uma cerimonia em sua honra) e os dois irmãos mais velhos trabalham em Jakarta. A Dinda tem 22 anos e esta no seu 4o e ultimo ano de Medicina. Recolhe-me, no aeroporto no jipe Toyota da mãe, que conduz com agilidade pelo meio do transito, apesar de nao ter carta de condução… De cabeça descoberta e decote ocidental, e dócil mas curiosa e responde sem pruridos a todas as perguntas que lhe vou fazendo. Já lhe conheci o namorado, que mantém em segredo da mãe, um musico cabeludo e sorridente. A mãe não trabalha e esta sempre por casa (como foi desígnio do marido depois de casarem), surge-me vestida em bonitos batiks, rindo frequentemente da minha estranheza perante as novidades e tentando comunicar com os seus poucos (mas suficientes e muito louváveis) rudimentos de Inglês. Esta semana conhecerei a irmã: na 6a feira será formalmente discutido entre os pais de ambos os lados um possível casamento com o namorado (escolhido livremente, mas com consulta obrigatória da família). A casa e solida e grande, com um pequeno jardim na frente e uma decoração agradável, cheia de referencias ao futebol por todo o lado, em muitos posteres, estampas e recortes de jornal pendurados nas paredes, nalguns dos quais figura o pai. Há muitos espaços abertos e ja vi alguns ratitos e baratas a circular, mas o mais impressionante são os geckos gigantes, chamados tokeks por aqui, uns sardões muito corpulentos que aderem as paredes e emitem gritos sonoros, que podia jurar que provinham de aves. Tenho o meu quarto no primeiro andar, a rede mosquiteira encaixou que nem uma luva no reposteiro das cortinas e cobre a minha cama como uma redoma: sinto-me na minha bolha protectora.

Vou tentar escrever mais amiúde, ha tanto para dizer…

domingo, 15 de fevereiro de 2009

AU REVOIR

Janeiro engoliu-me na sua avalanche de eventos, impedindo-me de deixar un mot que fosse do último mês d’Erasmus. Às 0horas do primeiro dia do ano, brindei um cálice de champanhe com os meus bons amigos Diana e Stef , em casa de um francês do centre ville. No fim da festa, caminhamos noite (e frio) dentro, durante meia hora, até à residência e decidimos dormir os 3 no mesmo quarto (a mim, como mais pequena, calhou-me um colchão de criança que só me chegava aos tornozelos). Acordámos às 15h30, sentámos-nos a ver um filme e a comer o bolo rei que a minha avó me mandou e, quando abrimos a cortina, já era noite serrada...

Fiz alguns dias de ski, sempre de joelheira; num deles, um português com quem conversara no autocarro do aeroporto, também se juntou a nós. E dediquei-me à Psiquiatria com que aprendi a expressão “barrer
de ma liste”. E as principais razões porque a risco da minha lista são: 1 - a fronteira pouco clara entre o normal e o patológico: o anormal é sobretudo quantitativa e não qualitativamente diferente do estado normal; é preciso acreditar em teorias mais ou menos subjectivas (meias místicas, até) para classificar os problemas (todas as classificações são artifícios, mas, este caso é demasiado flagrante); 2 - os medicamentos podem mudar o humor (eu estava no serviço de Troubles d’humeur), mas não mudam o contexto familiar, nem os problemas do doente; ali, há pouco investimento na Psicoterapia, nas actividades de ocupação dos tempos livres dos doentes: estes passam grande parte do dia na passividade e isolamento do seu quarto... O caso mais interessante que vi, foi o de uma doente com TOC (trouble obsessionnel compulsif) de ordem, a quem tive que fazer o exame neurológico. A doente estava sentada a raspar sans arrêt a sua bata onde tinha caído uma pinga de iogurte. Raspava, raspava, com uma colher e respondeu a todas as minhas solicitações de atenção com um “Espere, por favor, estou quase a acabar!” muito desesperado. Finalmente lá consegui fazer o exame, interrompida por outros rituais (perguntou-me 5 vezes com angústia se tinha tudo sobre o tabuleiro e suplicou-me repetidamente que refizesse o gesto de arrastar a cadeira que tinha puxado para me sentar). Entre estes acessos, conversou comigo normalmente sobre a sua vida, a forma como perdera o emprego, os amigos e a capacidade de estar em família... e como face à compulsão a angústia é crescente e insuportável se ela a tentar evitar.

Janeiro é um mês d’au-revoir e bienvenu. O Stef, o primeiro a partir, deixou-nos com uma festa que
só acabou às 6h30 com um pequeno-almoço de coxas de frango fritas . Depois dessa, outras despedidas, inclusivamente a minha: organizei a festa do chapeau, com chapéu de porte obrigatório e um pequeno concurso de cozinha. Os meus amigos ofereceram-me muitos souvenirs que guardo como relíquias: paté polaco, pão alemão daquele escuro e muito denso, mini vodka polaca, caneca polaca, colar romeno, mão dum esqueleto em papel da Alemanha, um romance, um bolo muito artístico de uma confeitaria (mas intragável...) e, o meu preferido, um álbum de fotografias e dedicatórias! A 2ª geração de Erasmus (os do 2º semestre que começaram a chegar) faz-me sentir parte do passado. Ajudo-os com a apresentação, digna de televendas, de todos os cartões e burocracias a cumprir. Um deles, o Marius, um lituano que veio ocupar o quarto da Sofi, muito limitado no francês, não recebeu a sua mala à chegada ao aeroporto e perguntou-me se podia contactar a companhia aérea. Mal eu sabia que o processo envolveria numerosos telefonemas, uma carta e um saldo final bem negativo com a mala dada como perdida 3 semanas depois. Conheci também um inglês simpático, o Adam, num dos fins-de-semana de ski. Chegado na véspera, aproveitou logo para esquiar em 2 Alpes. Infelizmente apanhamos um tempo tremendo, um frio, um nevoeiro e neve espessos, agitados e nauseantes, uma visibilidade reduzida a nada (nem o parceiro da frente, nem a pista sob os skis se viam). Eu, que por hábito persisto, estava aterrorizada e decidi juntar-me às raparigas do grupo na descida a um café onde fiquei a comer crepes a tarde toda. Uma hora depois, chegam os rapazes, com o pobre Adam todo ensanguentado porque colidira com outro esquiador e partira 3 dentes!

Em Urologia fui muito bem recebida, médicos simpáticos e bem humorados, dispostos a responder a todas as perguntas. De Psiquiatria, aliás, também só posso dizer bem do staff. N
o dia em que assisti a um transplante renal, perguntaram-me se tinha interesse em ver uma colheita de órgãos de um cadáver em morte cerebral, um homem jovem que morrera sob a neve. Às 22h, um interno telefonou-me a dizer que iam começar e eu lá fui. Estive no bloco até às 3h30 da manhã! Deixaram-me lavar e pude assistir às várias equipas que se sucediam para predar o órgão de interesse: coração, pulmões, fígado e, finalmente os rins. Terminei a Urologia a um dia de regressar a Portugal, com uma apresentação sobre traumatismo do rim (o doente era um ricaço rapaz russo caído no ski, pelo qual fiquei responsável) na qual me esmerei particularmente. Além da apresentação, entre fechar conta, cancelar a bolsa de ajuda ao alojamento, devolver cartões, entregar os papéis de estágio à relações internacionais, malas, limpar o quarto e receber a caução da residência e outras demarches pré-partida, quase tão desgastantes quanto as da chegada, os últimos dias foram de stress.

Umas amigas francesas, prestes a partir para o Brasil num dos intercâmbios IFMSA, pediram-me que lhes traduzisse o site de compra de bilhetes. E vi-me ainda como professora de Português brasileiro, inventando o sotaque e fazendo-as repetir com convicção disparates como “Chamo-miii Sofia”.

Nadei como uma louca para esvaziar o cartão de entradas na piscina, visitei o parque e o castelo de Vizzile, participei na soirée pizza para Erasmus de Medicina organizado pelas meninas da Corpo (a associação de estudantes) e em numerosas festas de despedida, saídas, jantares de queijo, baguetes e vinho, revi amigos, lugares, a neve, e num ápice estava no autocarro para o aeroporto de Lyon, as minhas amigas acenando-me do outro lado da janela, e Grenoble acenando-me do outro lado da janela, e eu própria, da minha janelinha de La Tronche e agarrada às montanhas, acenando-me do outro lado da janela...

NATAL

Acabo de aterrar em Lisboa sem ponta da euforia prevista quando, há 3 meses, encaixilhei a fluorescentes a quadrícula do 22 de Dezembro no calendário. Nessa altura, as dificuldades e fascínio das primeiras experiências coexistiam com a vontade da rotina e do conforto caseiros e a ânsia da família e dos amigos de sempre. Por fim, 3 meses volvidos, posso dizer que passei o ponto crítico de mudança, de habituação, estabilizei, respondo mecanicamente ao que no início representava um problema, enraizei-me nas novas estruturas materiais e sociais, tenho um quotidiano previsível, uma nova vida. Estou muito contente por rever a minha família, mas voltar a Portugal já não é mais regressar à rotina e ao conforto conhecidos porque esses elementos já os tenho de onde venho. Pela primeira vez vou ao Porto passar férias! Ainda bem que consegui o prolongamento. Não seria fisiológico partir agora que a acomodação de que falo está consolidada.

Em Grenoble as iluminações de Natal enfrentam timidamente a noite que engole a cidade a partir das 17h. O bulício natalício sente-se sobretudo nas imediações do mercado de Natal, instalado na Place Victor Hugo. A luz dourada e a aura de canela atraiem as gentes que se passeiam entre as barraquinhas de artesanato, aquecendo as mãos e esófago e o espírito com chocolate ou vinho quentes. À volta, as artérias comerciais dilatam para acomodar a multidão consumista. Para celebrar a festividade, organizei uma pequena festa de Natal na residência. Tive de pedir autorização por escrito à directora discriminando pormenores. Cada participante trouxe um prato típico de Noel do seu país (eu fritei um tabuleiro de rabanadas em tempo record e, apesar de ter carbonizado algumas, no final não sobrou migalha!). Na troca de presentes calhou-me uma garrafa de Leffe, a cerveja belga, e, à polaca, a caneca e o paninho portugueses.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

MON GENOU!

Pouco sono, muita neve, os poucos metros que me separam das espessas nuvens cinzentas, amigos que partem para o Natal, o recém-começado estágio de Psiquiatria (em perturbações de humor) ou simplesmente o cocktail desfavorável de neurotransmissores, a verdade é que me sinto algo melancólica... A lista numerosa de afazeres pré-partida adiciona algum stress. Em que medida o estado de espírito depende de factores orgânicos e até que ponto é que voluntariamente o podemos modificar é uma questão que me intriga...

Quinta-feira marcou a metade da semana passada. Até lá tive de conciliar 12 horas de aulas teóricas de Ginecologia, o estágio no hospital e os muitos exercícios de preparação para o Delf, o exame para obter o diploma do nível B2.2 de Francês. Consiste em 4 partes: compreensões escrita e oral, composição e prova oral. 5a decorreram as 3 primeiras partes (3 horas de prova), ao que se seguiu o exame final do curso de Francês para Erasmus, durante outras 2 horas, por coincidência, marcado exactamente na mesma tarde e local! Quando, às 20h, depois de 5 horas de textos, sinónimos, opiniões pessoais, cartas e outras composições, sai da sala de exame coradíssima e a transpirar francês por cada poro, a soirée de patinagem agendada para essa noite não poderia ser mais bem-vinda. No grande Patinoire de Grenoble dezenas de estudantes de Medicina, entre os quais o grupo de Erasmus, deram mostras de diversos graus de destreza sobre o gelo. Eu, que patinava pela 2a vez, deixei-me puxar a grande velocidade de mão dada com dois amigos polacos. Mais tarde, confiante, copiando a técnica dos melhores, comecei a deslizar rápido e com mais estilo. Estava de orgulho inflamado pelos progressos que fizera em poucas horas, quando o travão de um dos patins se cravou no gelo e aterrei de joelho e bacia na dureza da pista. O joelho ficou com um hematoma e uma dor à palpação e flexão que continuou nos dias seguintes apesar das ligaduras e anti-inflamatórios. Apesar de tudo, como já tinha forfait comprado e muito boa companhia, decidi ir esquiar no sábado. Foi um dia de ski fantástico, com uma neve macia e céu azul (ainda que -7ºC...), mas nessa noite o derrame do joelho tinha aumentado e no Domingo manquei às urgências desta vez como paciente... Entrei pela porta dos médicos de pijama cirúrgico e a médica que me viu não encontrou nada de particular. A verdade é que continuei com dores e um verdadeiro joelho meteorológico, sensível ao mau tempo. Vi ontem o ortopedista e, ao que parece, tenho uma contusão do côndilo femoral que me vai importunar durante 2 meses, mas não me impede de esquiar! De resto, o serviço de Ortopedia está a pensar abrir uma sucursal e destacar um médico para o meu corredor da residência, tantos são os problemas articulares que lá se acumulam (pelo menos 3 joelhos, 2 cotovelos e 1 punho!).

A festa de despedida da finlandesa, no fim-de-semana, pôs à prova a capacidade da cozinha, reunindo 30 pessoas no mesmo espaço exíguo. As pessoas falavam duas a duas reclinando-se sobre o ouvido uma da outra para se fazerem ouvir porque a acústica da cozinha é terrível. A partir daí, outros começaram a partir. O Jonathan, um americano muito querido da comunidade erasmus, deixou-nos também com uma festa na sala de ping-pong da residência. A Sofi, a sueca, apanhou o avião directamente para a Ásia, e deu-me, em herança, alguma da sua roupa e utensílios de quarto. Anuncia-se o fim, mas para mim ainda falta a última semana que posso dizer que foi a mais extenuante...

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

LUZES EM LYON

O que não se regista perde-se. A memória é muito limitada para fixar mesmo os pormenores que, a quente, nos parecem inesquecíveis. As fotografias ajudam, mas, das emoções, captam só a superfície visível... 2 semanas sem escrever o relato semanal, e quadruplica a energia necessária para resgatar da bruma os episódios mais interessantes. A razão principal é que, nos últimos tempos se avolumou algum trabalho... Na primeira semana de Dezembro passei 9 horas, registadas na folha de presença, no laboratório de línguas a fazer exercícios de Francês e labutei outras tantas em casa a preparar as apresentações de Ginecologia que constituíram a minha avaliação. São casos clínicos e discussão teórica, nada de complicado, não fosse o francês que, para sair fluido, exige que repita varias vezes. Para isso, bati a algumas portas da residência e fiz a distribuição domiciliaria da teoria dos miomas uterinos e infertilidade primária do casal, antes da apresentação definitiva diante do chefe de serviço e alguns externos. Voltei a receber A. Depois de algumas semanas a arrastar o projecto, consegui acabar a tempo o dossier de 5 paginas obrigatório para o curso de Francês. Escolhi como tema os estereótipos, em particular aqueles que os outros povos mantém em relação aos franceses. Conduzi um pequeno inquérito entre os Erasmus de 10 nacionalidades diferentes e cheguei à conclusão de que os estereótipos variam em função da nacionalidade e são, em grande parte, estabelecidos por comparação com o seu próprio grupo. Assim, se para os tunisinos os franceses são louros, para os alemães são morenos e se os brasileiros os consideram frios e racionais, para os romenos são relaxados e divertidos. À parte estas diferenças, há muitas semelhanças. Apontadas mais frequentemente como características: a falta de jeito para as línguas estrangeiras, o orgulho nacional, a tendência revolucionária, o romantismo; fisicamente a mulher elegante, chique, sempre na moda e de chapéu sofisticado e o homem efeminado, de grande nariz, camisa às riscas e baguette debaixo do braço, desfazendo-se em onomatopeias. Da cultura todos referiram a cozinha, os vinhos, queijos os patês..., os museus e a arquitectura. A propósito da culinária de renome, no dia 2 de Dezembro, fomos, todos os Erasmus de Medicina, jantar o célebre fondue de queijo da região, um prato muito light, em que todos os pedacinhos são embebidos em queijo liquefeito!

Na sexta feira 5 de Dezembro, vinda do Rock, segui directamente para o centre ville, onde continuei a dançar a outros ritmos. Sacudi a neve das botas e pisei a areia da praia duma recriação de bar dos trópicos, mais um dos muitos bares originais que proliferam graças à multidão de estudantes. Nessa mesma noite, por sugestão do Stef, belga, celebramos o St. Nicolau, que ao que parece viveu há 1800 anos na actual Turquia e se destacou pela generosidade para com as crianças carentes, mas acabou morto nas perseguições aos cristãos. Pela noite fora cada um dos 20 aderentes à celebração colocou doçarias dentro dos sapatos deixados à porta do quarto! Eu não respeitei a tradição e pendurei uma meia, com medo que me levassem as botas das quais depende a minha sobrevivência. Como previ a inundação de bom-bons e rebuçados, que estou certa que St. Nicolau reprovaria, decidi deixar maças. Comprei uma caixa de 15 kgs de Golden, e foi com esforço hercúleo que a transportei em braços para a residência. Distribui 4 por pessoa, em saquinhos individuais, e ainda me sobraram 40 para meu consumo pessoal até ao Natal... No dia seguinte, bem munida de chupas-chupas e maças, eu e outros Erasmus de Medicina fomos até Lyon com o grupo da Integre, a organização que acolhe os estudantes estrangeiros, para a festa da Luz. É a grande festa de Lyon, com milhares de pessoas a circularem nas ruas depois do anoitecer, projecções luminosas nas fachadas dos edifícios públicos, vinho quente vendido em cada esquina, vital quando se pretende caminhar lentamente durante algumas horas e estão 0ºC, igrejas de portas abertas e muitas velas. Antes do anoitecer aproveitamos para conhecer: as ruínas romanas, a catedral, o vieux Lyon e o centro cosmopolita e refinado, que forma uma quase-ilha entre os dois rios que cruzam Lyon.