Janeiro engoliu-me na sua avalanche de eventos, impedindo-me de deixar un mot que fosse do último mês d’Erasmus. Às 0horas do primeiro dia do ano, brindei um cálice de champanhe com os meus bons amigos Diana e Stef , em casa de um francês do centre ville. No fim da festa, caminhamos noite (e frio) dentro, durante meia hora, até à residência e decidimos dormir os 3 no mesmo quarto (a mim, como mais pequena, calhou-me um colchão de criança que só me chegava aos tornozelos). Acordámos às 15h30, sentámos-nos a ver um filme e a comer o bolo rei que a minha avó me mandou e, quando abrimos a cortina, já era noite serrada...
Fiz alguns dias de ski, sempre de joelheira; num deles, um português com quem conversara no autocarro do aeroporto, também se juntou a nós. E dediquei-me à Psiquiatria com que aprendi a expressão “barrer de ma liste”. E as principais razões porque a risco da minha lista são: 1 - a fronteira pouco clara entre o normal e o patológico: o anormal é sobretudo quantitativa e não qualitativamente diferente do estado normal; é preciso acreditar em teorias mais ou menos subjectivas (meias místicas, até) para classificar os problemas (todas as classificações são artifícios, mas, este caso é demasiado flagrante); 2 - os medicamentos podem mudar o humor (eu estava no serviço de Troubles d’humeur), mas não mudam o contexto familiar, nem os problemas do doente; ali, há pouco investimento na Psicoterapia, nas actividades de ocupação dos tempos livres dos doentes: estes passam grande parte do dia na passividade e isolamento do seu quarto...
O caso mais interessante que vi, foi o de uma doente com TOC (trouble obsessionnel compulsif) de ordem, a quem tive que fazer o exame neurológico. A doente estava sentada a raspar sans arrêt a sua bata onde tinha caído uma pinga de iogurte. Raspava, raspava, com uma colher e respondeu a todas as minhas solicitações de atenção com um “Espere, por favor, estou quase a acabar!” muito desesperado. Finalmente lá consegui fazer o exame, interrompida por outros rituais (perguntou-me 5 vezes com angústia se tinha tudo sobre o tabuleiro e suplicou-me repetidamente que refizesse o gesto de arrastar a cadeira que tinha puxado para me sentar). Entre estes acessos, conversou comigo normalmente sobre a sua vida, a forma como perdera o emprego, os amigos e a capacidade de estar em família... e como face à compulsão a angústia é crescente e insuportável se ela a tentar evitar.
Janeiro é um mês d’au-revoir e bienvenu. O Stef, o primeiro a partir, deixou-nos com uma festa que só acabou às 6h30 com um pequeno-almoço de coxas de frango fritas . Depois dessa, outras despedidas, inclusivamente a minha: organizei a festa do chapeau, com chapéu de porte obrigatório e um pequeno concurso de cozinha. Os meus amigos ofereceram-me muitos souvenirs que guardo como relíquias: paté polaco, pão alemão daquele escuro e muito denso, mini vodka polaca, caneca polaca, colar romeno, mão dum esqueleto em papel da Alemanha, um romance, um bolo muito artístico de uma confeitaria (mas intragável...)
e, o meu preferido, um álbum de fotografias e dedicatórias! A 2ª geração de Erasmus (os do 2º semestre que começaram a chegar) faz-me sentir parte do passado. Ajudo-os com a apresentação, digna de televendas, de todos os cartões e burocracias a cumprir. Um deles, o Marius, um lituano que veio ocupar o quarto da Sofi, muito limitado no francês, não recebeu a sua mala à chegada ao aeroporto e perguntou-me se podia contactar a companhia aérea. Mal eu sabia que o processo envolveria numerosos telefonemas, uma carta e um saldo final bem negativo com a mala dada como perdida 3 semanas depois. Conheci também um inglês simpático, o Adam, num dos fins-de-semana de ski. Chegado na véspera, aproveitou logo para esquiar em 2 Alpes. Infelizmente apanhamos um tempo tremendo, um frio, um nevoeiro e neve espessos, agitados e nauseantes, uma visibilidade reduzida a nada (nem o parceiro da frente, nem a pista sob os skis se viam). Eu, que por hábito persisto, estava aterrorizada e decidi juntar-me às raparigas do grupo na descida a um café onde fiquei a comer crepes a tarde toda. Uma hora depois, chegam os rapazes, com o pobre Adam todo ensanguentado porque colidira com outro esquiador e partira 3 dentes!
Em Urologia fui muito bem recebida, médicos simpáticos e bem humorados, dispostos a responder a todas as perguntas. De Psiquiatria, aliás, também só posso dizer bem do staff. N
o dia em que assisti a um transplante renal, perguntaram-me se tinha interesse em ver uma colheita de órgãos de um cadáver em morte cerebral, um homem jovem que morrera sob a neve. Às 22h, um interno telefonou-me a dizer que iam começar e eu lá fui. Estive no bloco até às 3h30 da manhã! Deixaram-me lavar e pude assistir às várias equipas que se sucediam para predar o órgão de interesse: coração, pulmões, fígado e, finalmente os rins. Terminei a Urologia a um dia de regressar a Portugal, com uma apresentação sobre traumatismo do rim (o doente era um ricaço rapaz russo caído no ski, pelo qual fiquei responsável) na qual me esmerei particularmente. Além da apresentação, entre fechar conta, cancelar a bolsa de ajuda ao alojamento, devolver cartões, entregar os papéis de estágio à relações internacionais, malas, limpar o quarto e receber a caução da residência e outras demarches pré-partida, quase tão desgastantes quanto as da chegada, os últimos dias foram de stress.
Umas amigas francesas, prestes a partir para o Brasil num dos intercâmbios IFMSA, pediram-me que lhes traduzisse o site de compra de bilhetes. E vi-me ainda como professora de Português brasileiro, inventando o sotaque e fazendo-as repetir com convicção disparates como “Chamo-miii Sofia”.
Nadei como uma louca para esvaziar o cartão de entradas na piscina, visitei o parque e o
castelo de Vizzile, participei na soirée pizza para Erasmus de Medicina organizado pelas meninas da Corpo (a associação de estudantes) e em numerosas festas de despedida, saídas, jantares de queijo, baguetes e vinho, revi amigos, lugares, a neve, e num ápice estava no autocarro para o aeroporto de Lyon, as minhas amigas acenando-me do outro lado da janela, e Grenoble acenando-me do outro lado da janela, e eu própria, da minha janelinha de La Tronche e agarrada às montanhas, acenando-me do outro lado da janela...
Fiz alguns dias de ski, sempre de joelheira; num deles, um português com quem conversara no autocarro do aeroporto, também se juntou a nós. E dediquei-me à Psiquiatria com que aprendi a expressão “barrer de ma liste”. E as principais razões porque a risco da minha lista são: 1 - a fronteira pouco clara entre o normal e o patológico: o anormal é sobretudo quantitativa e não qualitativamente diferente do estado normal; é preciso acreditar em teorias mais ou menos subjectivas (meias místicas, até) para classificar os problemas (todas as classificações são artifícios, mas, este caso é demasiado flagrante); 2 - os medicamentos podem mudar o humor (eu estava no serviço de Troubles d’humeur), mas não mudam o contexto familiar, nem os problemas do doente; ali, há pouco investimento na Psicoterapia, nas actividades de ocupação dos tempos livres dos doentes: estes passam grande parte do dia na passividade e isolamento do seu quarto...
Janeiro é um mês d’au-revoir e bienvenu. O Stef, o primeiro a partir, deixou-nos com uma festa que só acabou às 6h30 com um pequeno-almoço de coxas de frango fritas . Depois dessa, outras despedidas, inclusivamente a minha: organizei a festa do chapeau, com chapéu de porte obrigatório e um pequeno concurso de cozinha. Os meus amigos ofereceram-me muitos souvenirs que guardo como relíquias: paté polaco, pão alemão daquele escuro e muito denso, mini vodka polaca, caneca polaca, colar romeno, mão dum esqueleto em papel da Alemanha, um romance, um bolo muito artístico de uma confeitaria (mas intragável...)
Em Urologia fui muito bem recebida, médicos simpáticos e bem humorados, dispostos a responder a todas as perguntas. De Psiquiatria, aliás, também só posso dizer bem do staff. N
Umas amigas francesas, prestes a partir para o Brasil num dos intercâmbios IFMSA, pediram-me que lhes traduzisse o site de compra de bilhetes. E vi-me ainda como professora de Português brasileiro, inventando o sotaque e fazendo-as repetir com convicção disparates como “Chamo-miii Sofia”.
Nadei como uma louca para esvaziar o cartão de entradas na piscina, visitei o parque e o
1 comentário:
Sofi! Te leo siempre.
Me ha impactado lo del transplante de órganos, que valiente eres!
A ver si leyendo el blog aprendo algo de portugués.
Un besito!
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