Para amenizar a mudança para as aguas do Indico, os dinamarqueses, a quem me associei na viagem, elegeram o hotel Atlântico de Jakarta para passar a primeira noite. Por 16 euros garantiam quartos elegantes, adequados ao standard internacional, com ar condicionado, banheiras e agua quente 24 horas por dia. Só depois da chegada a Yogyakarta, percebi porque raio e que uma banheira figuraria num cartão publicitário: aqui o WC habitual e um buraco no chão para os excrementos e um pequeno tanque de 0,1 m2, cuja agua se retira com um balde, como forma de autoclismo e de "duche". Em Jakarta, na realidade deparamo-nos com quartos muito modestos, algumas baratas, cabelos nos lençóis e um cheiro ubiquitário intenso a naftalina. Tudo toleraria, tal o cansaço, mas o calor húmido, resistente ao ar condicionado, e, sobretudo, o volume e estridência do chamamento do minarete provaram-se favoráveis ao jet lag e a insónia. As 6 horas de diferença horária rapidamente se expandem para 8 ou 10, quando sou acordada, as 4h30 de cada manha... O muezzin mecânico ecoa sonoro durante uns 45 minutos, por todos os cantos de todas as zonas habitáveis, e lembra que são horas da primeira oração. Ja vou no terceiro dia e ainda não recuperei das diferenças de fuso horário, não há café que me valha, aqui e uma agua castanha sem sabor a café e sem cafeína que se preze. Ainda assim, tão desidratada estava depois dessa primeira noite em que muito suei, que bebi sofregamente 4 chávenas ao pequeno-almoço, satisfeita com aquela fonte de hidratação segura, porque certamente fervida de tão quente. Só me apercebi no final que tinha a língua quase cozida e fiquei com dores todo esse dia... A preocupação com a segurança do que bebo valeu-me hoje outro dissabor, quando um copo de agua selado rebentou na minha mochila e me molhou os livros todos, inclusive o guia da Indonésia que esta agora a secar todo ondulado...
Arroz. Amarelo, vermelho, cozido, frito, em pasta, em grão, em forma de esparguete, como aperitivo, como prato principal, como sobremesa, ao pequeno-almoço, almoço e jantar. E, de facto, a base da alimentação. Aqui contudo, ao contrario de Madagáscar, não satura porque e apresentado de formas tão variadas. O
s acompanhamentos possíveis são variados: frango, pato, vaca, carneiro, peixe, tudo complementado com molho picante. Como não como vaca, nem carneiro, tenho-me ficado pelas aves, com mais pele e ossos que carne. Os legumes não abundam: umas cenouras, pepino, tomate, ervilhas e couve flor. Fruta também tenho comido pouca, sobretudo porque nunca a encontro com casca. Come-se tudo a mão (direita), inclusive o arroz, com o qual se fazem bolinhas que se embebem nos molhos! Uma tacinha com agua funciona de guardanapo.
Quero dedicar um paragrafo aos quartos-de-banho. Como diz o ditado “na Indonésia, se indonésio” mas, se comer arroz picante a mão não tem sido problema, o mesmo não posso dizer da adaptação aos quartos de banho. O meu principal problema e que aqui não usam papel higiénico. Dos tais tanques de que falei, existentes em qualquer WC, retiram com o baldinho, agua para se lavarem e, o que mais me intriga, não se secam, depois. Com o mesmo balde tomo banho, atirando agua que retiro do tanque, por cima da cabeça, agua esta que e depois escoada por um buraco no chão. O quarto-de-banho e uma dependência da casa sempre molhada, onde tenho de arregaçar as calcas para entrar (de chinelos, porque os sapatos da rua se deixam a porta de casa). Não desgosto deste sistema de duche mais water-saving (só me custa apanhar com agua fria de manhã, quando ainda tenho o metabolismo a meio gás), mas, a “limpar-me” com agua e não ter papel higiénico, não consigo fazer, ate porque não entendo totalmente como se desenrola o procedimento. Em SOS fui a um supermercado comprar papel higiénico, que encontrei numas prateleiras do fundo da loja e pelo qual paguei uma fortuna (para os custos locais).
Os custos. E muito difícil perceber qual e o custo das coisas para os locais porque o ar de ocidental triplica logo as contas. Mesmo o triplo e barato, mas a necessidade de estar sempre alerta para minimizar o quanto somos enganados, e um bocado desgastante. Ate nos transportes públicos (autocarros decrétipos e enegrecidos que circulam a bolina de portas abertas e não tem paragens fixas) o “pica” tenta dar o golpe e pedir o dobro pelos bilhetes. A refeição na cantina universitária, uma humilde cabana com mesas isenta de espírito suga-turista, custa 40 cêntimos, um bilhete de autocarro 20 cêntimos, uma massagem de 2 horas 3 euros (!!!), uma ida ao spa capilar, como a que vou fazer hoje, 5 euros.
Neste que e o pais com a maior população muçulmana do mundo, a religião faz-se sentir em muitos dos aspectos do quotidiano, se bem que de forma aberta e sem fundamentalismos. Rezam 5 vezes ao dia (ate no avião, onde assisti a cena curiosa de ver dois xeques do Dubai a discutir em frente a que janela haviam de estender o seu tapetinho), não comem carne de porco, as raparigas tem de cobrir a cabeça na faculdade (idealmente nenhuma parte do corpo, a excepção da cara, mãos e pés deve ficar exposta), entre outros que descreverei mais tarde.
A Dinda e a mãe são as minhas anfitriãs. O pai, futebolista profissional da primeira liga, e, mais tarde, treinador na selecção, morreu com um AVC há precisamente um ano (na próxima semana farão uma cerimonia em sua honra) e os dois irmãos mais velhos trabalham em Jakarta. A Dinda tem 22 anos e esta no seu 4o e ultimo ano de Medicina. Recolhe-me, no aeroporto no jipe Toyota da mãe, que conduz com agilidade pelo meio do transito, apesar de nao ter carta de condução… De cabeça descoberta e decote ocidental, e dócil mas curiosa e responde sem pruridos a todas as perguntas que lhe vou fazendo. Já lhe conheci o namorado, que mantém em segredo da mãe, um musico cabeludo e sorridente. A mãe não trabalha e esta sempre por casa (como foi desígnio do marido depois de casarem), surge-me vestida em bonitos batiks, rindo frequentemente da minha estranheza perante as novidades e tentando comunicar com os seus poucos (mas suficientes e muito louváveis) rudimentos de Inglês. Esta semana conhecerei a irmã: na 6a feira será formalmente discutido entre os pais de ambos os lados um possível casamento com o namorado (escolhido livremente, mas com consulta obrigatória da família). A casa e solida e grande, com um pequeno jardim na frente e uma decoração agradável, cheia de referencias ao futebol por todo o lado, em muitos posteres, estampas e recortes de jornal pendurados nas paredes, nalguns dos quais figura o pai. Há muitos espaços abertos e ja vi alguns ratitos e baratas a circular, mas o mais impressionante são os geckos gigantes, chamados tokeks por aqui, uns sardões muito corpulentos que aderem as paredes e emitem gritos sonoros, que podia jurar que provinham de aves. Tenho o meu quarto no primeiro andar, a rede mosquiteira encaixou que nem uma luva no reposteiro das cortinas e cobre a minha cama como uma redoma: sinto-me na minha bolha protectora.
Vou tentar escrever mais amiúde, ha tanto para dizer…
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