quarta-feira, 9 de setembro de 2009

PRIMEIRAS IMPRESSÕES

No alto, ao lado do vermelho do semáforo, um quadro em contagem decrescente assinala os segundos que faltam para o verde. 5,4,3,2,1 motas, carros, bicicletas, riquechós arrancam em debandada. As motas são dezenas, não centenas, não milhares, um verdadeiro enxame a zumbir em movimentos rápidos e ultrapassagens ziguezagueantes a direita e a esquerda tangentes a outros veículos: uma trajectória incompreensível, no que a mim me parece uma permanente ameaça de colisão. No coração da nuvem de motorizadas, em cima de uma Honda, agarro-me como posso a cintura da Adinda, a minha anfitriã local. Tenho medo!!! Outras motas passam por nos a distancia de um pelo, espanto-me com a destreza, com o estarmos perto perto perto, mas não nos chegarmos a tocar. A mota e o transporte local por excelência, não há quem não tenha uma. Em cima de outras motas vê-se todo o tipo de coisas. Desde mulheres bem vestidas de carteirinha e tacão, homens rudes de chinela velha no pé, senhoras num lugar de passageiro idêntico ao meu, com saias compridas e as duas pernas para o mesmo lado, famílias inteiras, com bebes ensanduichados entre os pais, enormes sacos de batatas que ampliam 3 vezes a largura da mota, cestas carregadas, compras do supermercado em sacos de plástico presos por ganchos, a imaginação e o limite. De capacete mal amanhado que não prende bem a cabeça e uma mascara bico-de-pato para não aspirar poluição, desorientada pelos milhares de buzinadelas, la vou eu, murmurando preces, no meio deste enxame que envergonharia qualquer concentração motard europeia... muitos riscos equacionei, mas este nao esperava!


Para amenizar a mudança para as aguas do Indico, os dinamarqueses, a quem me associei na viagem, elegeram o hotel Atlântico de Jakarta para passar a primeira noite. Por 16 euros garantiam quartos elegantes, adequados ao standard internacional, com ar condicionado, banheiras e agua quente 24 horas por dia. Só depois da chegada a Yogyakarta, percebi porque raio e que uma banheira figuraria num cartão publicitário: aqui o WC habitual e um buraco no chão para os excrementos e um pequeno tanque de 0,1 m2, cuja agua se retira com um balde, como forma de autoclismo e de "duche". Em Jakarta, na realidade deparamo-nos com quartos muito modestos, algumas baratas, cabelos nos lençóis e um cheiro ubiquitário intenso a naftalina. Tudo toleraria, tal o cansaço, mas o calor húmido, resistente ao ar condicionado, e, sobretudo, o volume e estridência do chamamento do minarete provaram-se favoráveis ao jet lag e a insónia. As 6 horas de diferença horária rapidamente se expandem para 8 ou 10, quando sou acordada, as 4h30 de cada manha... O muezzin mecânico ecoa sonoro durante uns 45 minutos, por todos os cantos de todas as zonas habitáveis, e lembra que são horas da primeira oração. Ja vou no terceiro dia e ainda não recuperei das diferenças de fuso horário, não há café que me valha, aqui e uma agua castanha sem sabor a café e sem cafeína que se preze. Ainda assim, tão desidratada estava depois dessa primeira noite em que muito suei, que bebi sofregamente 4 chávenas ao pequeno-almoço, satisfeita com aquela fonte de hidratação segura, porque certamente fervida de tão quente. Só me apercebi no final que tinha a língua quase cozida e fiquei com dores todo esse dia... A preocupação com a segurança do que bebo valeu-me hoje outro dissabor, quando um copo de agua selado rebentou na minha mochila e me molhou os livros todos, inclusive o guia da Indonésia que esta agora a secar todo ondulado...


Arroz. Amarelo, vermelho, cozido, frito, em pasta, em grão, em forma de esparguete, como aperitivo, como prato principal, como sobremesa, ao pequeno-almoço, almoço e jantar. E, de facto, a base da alimentação. Aqui contudo, ao contrario de Madagáscar, não satura porque e apresentado de formas tão variadas. Os acompanhamentos possíveis são variados: frango, pato, vaca, carneiro, peixe, tudo complementado com molho picante. Como não como vaca, nem carneiro, tenho-me ficado pelas aves, com mais pele e ossos que carne. Os legumes não abundam: umas cenouras, pepino, tomate, ervilhas e couve flor. Fruta também tenho comido pouca, sobretudo porque nunca a encontro com casca. Come-se tudo a mão (direita), inclusive o arroz, com o qual se fazem bolinhas que se embebem nos molhos! Uma tacinha com agua funciona de guardanapo.

Quero dedicar um paragrafo aos quartos-de-banho. Como diz o ditado “na Indonésia, se indonésio” mas, se comer arroz picante a mão não tem sido problema, o mesmo não posso dizer da adaptação aos quartos de banho. O meu principal problema e que aqui não usam papel higiénico. Dos tais tanques de que falei, existentes em qualquer WC, retiram com o baldinho, agua para se lavarem e, o que mais me intriga, não se secam, depois. Com o mesmo balde tomo banho, atirando agua que retiro do tanque, por cima da cabeça, agua esta que e depois escoada por um buraco no chão. O quarto-de-banho e uma dependência da casa sempre molhada, onde tenho de arregaçar as calcas para entrar (de chinelos, porque os sapatos da rua se deixam a porta de casa). Não desgosto deste sistema de duche mais water-saving (só me custa apanhar com agua fria de manhã, quando ainda tenho o metabolismo a meio gás), mas, a “limpar-me” com agua e não ter papel higiénico, não consigo fazer, ate porque não entendo totalmente como se desenrola o procedimento. Em SOS fui a um supermercado comprar papel higiénico, que encontrei numas prateleiras do fundo da loja e pelo qual paguei uma fortuna (para os custos locais).

Os custos. E muito difícil perceber qual e o custo das coisas para os locais porque o ar de ocidental triplica logo as contas. Mesmo o triplo e barato, mas a necessidade de estar sempre alerta para minimizar o quanto somos enganados, e um bocado desgastante. Ate nos transportes públicos (autocarros decrétipos e enegrecidos que circulam a bolina de portas abertas e não tem paragens fixas) o “pica” tenta dar o golpe e pedir o dobro pelos bilhetes. A refeição na cantina universitária, uma humilde cabana com mesas isenta de espírito suga-turista, custa 40 cêntimos, um bilhete de autocarro 20 cêntimos, uma massagem de 2 horas 3 euros (!!!), uma ida ao spa capilar, como a que vou fazer hoje, 5 euros.


Neste que e o pais com a maior população muçulmana do mundo, a religião faz-se sentir em muitos dos aspectos do quotidiano, se bem que de forma aberta e sem fundamentalismos. Rezam 5 vezes ao dia (ate no avião, onde assisti a cena curiosa de ver dois xeques do Dubai a discutir em frente a que janela haviam de estender o seu tapetinho), não comem carne de porco, as raparigas tem de cobrir a cabeça na faculdade (idealmente nenhuma parte do corpo, a excepção da cara, mãos e pés deve ficar exposta), entre outros que descreverei mais tarde.

A Dinda e a mãe são as minhas anfitriãs. O pai, futebolista profissional da primeira liga, e, mais tarde, treinador na selecção, morreu com um AVC há precisamente um ano (na próxima semana farão uma cerimonia em sua honra) e os dois irmãos mais velhos trabalham em Jakarta. A Dinda tem 22 anos e esta no seu 4o e ultimo ano de Medicina. Recolhe-me, no aeroporto no jipe Toyota da mãe, que conduz com agilidade pelo meio do transito, apesar de nao ter carta de condução… De cabeça descoberta e decote ocidental, e dócil mas curiosa e responde sem pruridos a todas as perguntas que lhe vou fazendo. Já lhe conheci o namorado, que mantém em segredo da mãe, um musico cabeludo e sorridente. A mãe não trabalha e esta sempre por casa (como foi desígnio do marido depois de casarem), surge-me vestida em bonitos batiks, rindo frequentemente da minha estranheza perante as novidades e tentando comunicar com os seus poucos (mas suficientes e muito louváveis) rudimentos de Inglês. Esta semana conhecerei a irmã: na 6a feira será formalmente discutido entre os pais de ambos os lados um possível casamento com o namorado (escolhido livremente, mas com consulta obrigatória da família). A casa e solida e grande, com um pequeno jardim na frente e uma decoração agradável, cheia de referencias ao futebol por todo o lado, em muitos posteres, estampas e recortes de jornal pendurados nas paredes, nalguns dos quais figura o pai. Há muitos espaços abertos e ja vi alguns ratitos e baratas a circular, mas o mais impressionante são os geckos gigantes, chamados tokeks por aqui, uns sardões muito corpulentos que aderem as paredes e emitem gritos sonoros, que podia jurar que provinham de aves. Tenho o meu quarto no primeiro andar, a rede mosquiteira encaixou que nem uma luva no reposteiro das cortinas e cobre a minha cama como uma redoma: sinto-me na minha bolha protectora.

Vou tentar escrever mais amiúde, ha tanto para dizer…

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